quarta-feira, 22 de junho de 2016

Eu Sinto

EU SINTO


Há uma penumbra no canto
da sala, do olho, da alma
Há um frio a correr e escorrer
a espinha, pela boca, pela alma
Há odores velados
nas cores, nas peles, nas almas
Há um mormaço denso, pulsando
com ares, aos pares, pelas almas
Há o silêncio, o tédio, a falta
na ponta dos dedos, nos arremedos
Há tantas coisas nos bares, nos altares
Sinto com meus cocares, em seus
Falares, nos seus olhares e em seus calares
Eu sinto, sou gente, tenho alma
Sou mais que contingente. Perceba!
Eu sinto, sou da terra, sou gente!

segunda-feira, 27 de julho de 2015

A gorda

O chefe a mediria de alto a baixo quando fosse bater o ponto, tinha certeza disso. Aquela íntima certeza que nos acomete ao nos aventurarmos na beira do fogo, quando temos doses a mais e esperteza a menos. Estava atrasada para o trabalho. Segunda vez só essa semana, seria a frase a ressoar por entre as baias do setor. E, para coroar a humilhação, ainda soltaria uma pérola do tipo “Não fosse essa voz, senhorita...”.
Soubesse ele o tamanho da raiva que alimentava nas veias a cada insinuação de demérito ou de incapacidade, salvando-se a voz, é claro! Afinal, para uma operadora de telemarketing era o que bastava. Ninguém olharia para as faces rosadas, o corpo redondo, as mãos fofas, as roupas largas ou as sapatilhas abrigando pés de batatinha – como sua mãe costumava dizer.
Mas, o chefe, tinha uma particular predileção por provocar e humilhar seu espírito. Queria domá-la. Adestrar uma cadelinha a mais para as sessões pós-expediente. Não por considerá-la uma mulher bonita, mas para manter o saldo de funcionárias testadas e aprovadas no sofá. Sabendo ou não disso, cada nova doma fazia o poder sobre o grupo crescer, mas diminuía as vendas. As cadelinhas do patrão, invariavelmente, acabavam sofrendo de baixa auto-estima, depressão ou nojo crônico do careca. E, como final esperado, pediam as contas ou levavam uma alpargata nos fundilhos.
Por várias vezes ela tivera a impressão de que alguns números com os quais entrava em contato eram testes ou talvez trotes do careca suarento. Uma voz sempre ofegante do outro lado da linha, que se intensificava em um ritmo de quem brincava com as partes e já tocaiava o telefone, aguardando um timbre conhecido. Um alguém que fingia interesse pelo produto, deixava a operadora pronunciar o texto todo e fazia perguntas cada vez mais próximas da voz que treme à beira de um orgasmo.
Pensar em oferecer o pé aos glúteos da empresa, o fizera várias e várias vezes, das formas mais estranhas, possíveis e impossíveis. Mas, já havia aprendido a lição de que manequins acima de 48 conseguem os bastidores. Nada de holofotes para ela, nem mesmo com MBA ou graduação com louvor na turma da universidade pública federal. O mundo do trabalho era extremamente cruel para sua pouca experiência de vida prática.
Como não tinha muito brilhantismo nem pendores para os esportes, a forma mais honesta de se sobressair era a inteligência. Mesmo com os incômodos de ser a amiga nerd do menino mais lindo da turma, de ser a conselheira sentimental das pegadoras do colégio. Sim, ela deixava que as coisas fluíssem assim. Antes isso que o nada social.
Gostava de dançar, de sentir-se acompanhada durante os 3 ou 4 minutos da canção. Mas desistiu no dia em que escutou os garotos rindo depois de dizerem que ela cheirava bem, mas era impossível juntar as mãos ao redor da sua cintura. “Cintura?!” Outro gargalhou, “aquilo é o protótipo da rolha do poço!”. “Se ela fosse mais magra... seria apenas uma gorda” e continuaram as piadas.
Ser Inteligente não garantiu que tivesse experiência de vida nem muito jeito ou tolerância com as pessoas. Vivia à espera do tranco, da piada, do preconceito, à sombra do estereótipo. Era uma desconfiada por natureza. O ser humano a deixava assim. Tipos como o careca suarento, então, potencializavam a timidez e aprontavam as garras.
Desejaria ser uma romântica ou mais uma rata de academia a fazer as mais inusitadas dietas e consumir shakes milagrosos da TV mas, os pés de batatinha, fincados aos chão, tinham raízes no realismo que consumia ávida da biblioteca do avô.
Por vezes preferiria ser uma das mulheres de Nelson Rodrigues ardendo em suas vidas imperfeitas e rodeadas pela traição. Seria uma existência mais quente que a sua, certamente.
Viver com os avós não seria a primeira opção de sua adolescência até a morte de sua mãe. Coisa a que terapia nenhuma dera jeito. Nem ela queria que desse. Preferia a imagem da mãe heroína, lutadora e forte para se apegar que ouvir os xingamentos do avô nas noites em que julgavam que ela estava entregue aos braços de Morfeu.
“Não fosse essa voz, senhorita...”. “Vá ocupar logo seu posto de trabalho! Quero essa meta batida até a hora do almoço, entendido?! E isso serve para as demais cadelinhas! Agradeçam à gorda!” disse isso, girou sobre os calcanhares e caminhou em direção à saída. Pelo menos, o restante da manhã seria mais fresco sem a presença do careca suarento.
Ela sentou-se, colocou o head set, ligou o computador, pegou o script mas algo lhe ardia nas entranhas. Longe de ser uma pontada de gastrite, aquele sentimento tinha nome: raiva recolhida. Tinha certeza, pela intensidade, que alguém seria consumido por ela. Preferia que fosse o patrão.
Num ímpeto de coragem e uma ira estúpida, acompanhou o fechar da porta do elevador, e os números dos andares no mostrador chegarem ao 0. Sem a intenção de chamar mais atenção do que seu tipo físico já fazia, fingiu que o bebedouro era seu destino, abriu a porta do “recando da doma” e estudou minuciosamente os detalhes do ambiente. Uma devastadora brainstorm ocupou seus neurônios e se materializou num riso maquiavélico. Era isso!
Hora do almoço, meta batida duas vezes, cantadas telefônicas a preencher seu rechonchudo ego e uma ansiedade consumindo seu sangue. Suava mais que o comum, mesmo com o ar condicionado em potência ártica. Olhou novamente para as anotações que trazia no bolso, respirou fundo e fez uma breve oração ao São Jerônimo. Aprendera a pouco que esse era o padroeiro das secretárias. Nunca fora devota, muito menos religiosa, mas agora percebia que carecia de um milagre para seu intento se concretizar.
Subiu a Consolação calculando as frases que diria, os movimentos a serem executados, reforçou o batom, completou o perfume entre os seios, adentrou o hall do hotel e se fez anunciar. Apertou todos os botões do elevador porque a coragem começava a diminuir. Quando uma lágrima teimosa escorreu por seu rosto, recordou todas as humilhações de uma vida. Olhos fechados, cerrou os punhos e disse entre dentes “De hoje não passa!”.
Quando pisou no corredor, localizou facilmente o número do quarto. Olhou a porta, mirou-se em um espelhou ladeado por um vaso onde se via um arranjo com flores brancas, amarelas, lilases e vermelhas. Recolheu uma, limpou os espinhos, pensando que aquela seria a arma perfeita.
Ouviu a porta se abrir, mordeu os lábios, uma fisgada no estômago lhe recordava que estava faminta, mas tinha objetivos maiores para aquele intervalo que seu almoço. Municiou-se de seu melhor sorriso, quando sentiu seu ombro tocado.
Conhecia bem aquela voz, firme, aveludada. Há meses a ouvia todas as manhãs. Era o que a motivava a continuar naquele curral e suportar o careca suarento. Construíra uma amizade que logo se tornara em algo mais que carinho. Entretanto, tinha medo. Medo de perder o emprego, medo de ser rejeitada quando fosse vista em seu corpo plus size e não pudesse mais ser abrigada pela linda voz de operadora de telemarketing.
Tremeu, suspirou, olhos baixos, girou sobre os calcanhares e manteve o sorriso. Finalmente, seus olhares se cruzaram. Respirou fundo para falar algo que foi impedido por dedos gentis. Estendeu a arma perfumada. Recebeu um sorriso largo em retribuição e ouviu “Eu tinha certeza que você era muito mais que uma bela voz.”
Alimentou-se, por duas horas, do frescor de elogios como aquele.
Chegou ao escritório. O careca já estava lá. Cara de poucos amigos e o relatório das vendas da manhã nas mãos. A frase pronta na ponta da língua. “Não fosse essa voz, senhorita... Que essas estendidas no horário de almoço parem por aqui, entendido?”. Ela acenou com a cabeça. Em sua baia, copiou o conteúdo da pasta de vídeos do celular. Imprimiu duas folhas, gravou um CD. Reparou no relógio vermelho sobre a parede branco gelo. Aguardou mais 30 minutos. Recolheu suas coisas, colocou numa caixa de arquivo. Levantou-se e disse em alto e bom tom. “Gente... gostaria de agradecer a todas. Aprendi com vocês lições pra vida inteira.”
Um burburinho se instalou no ambiente. O suarento saiu de seu escritório batendo a porta atrás de si. “O que está acontecendo aqui, afinal de contas, senhorita?”.
A gorda pegou sua caixa e dois envelopes. Caminhou em direção ao suarento. Olhou vitoriosa para o chefe. Tirou o lenço que ele carregava no bolso, secou sua careca e, sem dizer palavra, imprimiu ali seus lábios com batom. Estendeu os envelopes, passou pela porta e deixou apenas o eco de seus saltos contra o chão do corredor.
Em um dos envelopes estava sua carta de demissão.

No outro, um CD e uma folha onde se lia “Para lhe ensinar como agradar a sua mulher”.

terça-feira, 30 de junho de 2015

Um furo na lata

Quando criança, costumava brincar com as latas dos produtos para a casa. Com as de óleo, jogava malha. Com as de Neston, eram os pés de lata. Com as de molho ou ervilha, telefones. Algumas ganhavam rodas e, voilà, um caminhãozinho. Tantas outras formas de transformar o material em brinquedo para suas tardes após a escola. Faltavam apenas os amigos para compartilhar. O cão, que morava no quintal, não podia chegar ao quarto. Fez amizade com a solidão. Companheira fiel, intimamente palpável.
Na adolescência, costumava estufar as latas com cacos de vidro. tampava bem e jogava na rua quando os ônibus passassem. Ninguém fazia cerol melhor que o seu. Outros empinadores tinham raiva de suas pipas. Cortavam os céus, os ventos, as linhas e, uma vez apenas, uma única vezinha de nada, separaram um capacete e seu conteúdo de um motoqueiro. Nem a correria para ficar com a tia uns dias, nem os apelos, nem a inexistência de antecedentes evitaram sua ida para uma cela de crianças infratoras. Aprendeu que era preciso dizer as coisas na lata, se quisesse parecer forte.
Logo percebeu que ter uma carinha de anjo não era algo bom naquele ambiente. Ainda não tinha muitas habilidades para lidar com pessoas. Continuava íntimo da solidão. Fechou a cara, estufou o peito, falou alto. Conseguiu mais dois com quem cheirar cola. Mas logo percebeu, sempre que dela aspirava, recordava seu cerol, a pipa, a linha vermelha, os meninos invejosos e dedos-duros. Raiva, mágoa, solidão, necessidade de vingança. Perdeu o medo, numa das vezes. Mirou, olhos vidrados, um moleque no canto do pátio de cimento. Era aquele abandonado solitário que iria pagar. Empurrou o guri para a sombra. Ninguém sentiu falta dos dois. Duas virgindades perdidas. Tinha virado homem.
Abandonou o pivete sangrando. Virou as costas, fez sinal com os olhos. Os outros dois foram se divertir também. Abafaram o choro do desvirginado e viraram machos, do mesmo jeito. Na enfermaria, o corpo inerte. No pátio, ninguém denunciava. 
Chegada a noite, o agora homem chorava feito menina. Queria estar orgulhoso por ser macho, forte, viril, porque seria respeitado. Só conseguia lembrar do pai e um outro homem tocando seu corpo, mandando ele fazer de conta que eram pirulitos. Recusar foi seu grande erro. O acampamento de pescaria durou uma semana. Disseram que se contasse para alguém seria pior.
Olhava para a parede. Queria tanto fechar os olhos e acordar fora dali, voltar no tempo, nunca ter botado aquela pipa no ar, que o vulto silencioso ao seu lado cravou  em sua fronte um prego enferrujado. Virou o comentário do café da manhã. No refeitório, uma cadeira sem uma perna. No IML um corpo com um furo na lata.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Explicando Alguns Pontos.

Antes de realmente começar este texto, eu gostaria de me desculpar. O texto tem destino certo, mas ainda não posso ou devo entregá-lo a quem realmente merece ler.

Quem me conhece há um certo tempo sabe o quanto eu sou apaixonada pelo Pequeno Príncipe (tanto que o tenho gravado na pele), e eu acho sim que todo mundo, pelo menos uma vez na vida, deveria ler este livro.

O Pequeno foi apresentado a mim por uma amiga muito querida, quando eu tinha dezoito anos e, desde as primeiras páginas, eu me encantei por aquele serzinho que tanto amava a sua rosa. Naquela época, eu também tinha uma rosa, distante e intocável, que foi a pessoa linda que apresentou a mim essa bela história, mas assim como ele "eu era jovem demais para saber amar". De lá pra cá, passamos anos conversando em segredo, usando frases e referências do livro. Hoje, meu amor por ela é um amor amigo. Já pelo Pequeno é eterno e sincero, por tudo o que aprendi lendo e relendo diversas vezes, e por ter sido "ajudante e cúmplice" de um sentimento tão puro.

Escrever sobre o Principezinho, sobre a vida, ou qualquer outra coisa, sempre foi algo libertador para mim. Escrever me acalma, faz bem, traz paz.

Partindo destes pontos, talvez vocês possam imaginar como me senti ao ouvir de uma amiga que tem uma pessoa (?) na cidade dizendo que eu plagiava os textos dela, que foi ela quem me apresentou O Pequeno Príncipe, e que, a partir daí eu surtei e comecei a buscar tudo dele.

Bom, vamos esclarecer algumas coisas. Este mesmo ser que diz escrever tudo tão bem (porque sim, só é plagiado quem é bom) tem dois textos meus no seu blog (que foram feitos a pedido dela), um em seu computador e vivia pedindo para escrevermos juntas. Eu sabia que não poderia, não estávamos no mesmo nível.

Esta cidadã conheceu o Pequeno pelo que me ouvia falar dele, inclusive no meu texto sobre o Principezinho que está no blog dela, ela admite não conhecer a historia e ter sido apresentada a ela pelas comparações que eu fazia da dita com o Pequeno. Sim, eu sei que neste momento você pode estar pensando que se eu tinha motivos para comparar, é porque algo deveria ser interessante. De fato era, o disfarce era bom, e meu dedo para amigos acerta na mosca, ou acaba com tudo. Acho que não preciso dizer qual foi o caso.

Agora pergunto a vocês. Não é ridículo ter que provar o tempo todo o quanto a pessoa mente? O que ela tem a ganhar com isso, além de ser motivo de chacota quando a máscara cai? Será que eu sou tão foda assim para ela querer tudo o que é meu, até os textos?

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

AMOR ZODIACAL

E o teu ferrão,

Língua afiada,

na minha boca,

Injeta em mim

O teu veneno


E o impacto

Dessa onda

De carne rubra

Me faz sentir

Provar, sugar

A doce dor

De um escorpião.


E minha pele

Expele o câncer

De ser virgem

Vítima imolada

Nas balanças

Dos teus altares



E trazes a mim

As luas novas

Dos teus gêmeos

Olhos a mostrar

Constelações

De prazer, de touro

Viril me apassivando.



E a ameaça

De tua fome, leão,

Ruge aos meus

Ouvidos que,

Cheios de tua

Trama oral

Me tornam

Cálice, ventre

Vulcão.



E só aos astros

Permitimos

Interferir, olhar

Cobiçar, invejar

A dança dos signos

Que nossas mãos

Tecem, em êxtase.


sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Presentinho mais que bem-vindo

Conselhos de Luiz Gasparetto

...´ Nunca tenha medo de se sentir diferente de ninguém. Veja bem: você está aqui para fazer a diferença! É por isso que a vida é linda – pelas diferenças, a coragem de assumir o próprio eu. Se o mundo aceita ou não, isso não importa. O principal é você se aceitar. Dessa forma, você estará protegida e no caminho da evolução!´

Obrigadão, Selminha!!

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Tudo começa com...

um beijo molhado

uma língua que se apresenta ao trabalho

profundo, árduo, penetrante

respiração que se altera

a cabeça mudando de lado

sem separar os lábios

mão na nuca

outra no seio

pressão do corpo

há uma parede

para depositar

os tremores do corpo

a intensidade das sensações

o aroma do perfume que exala feromônios

acrescentando desejo ao contato físico

e os poros gotejam pedidos de que nada pare

os passos se movem para o reservado quarto

as mãos se apressam em obedecer o comando

de liberar a pele para sentir

e os pelos para eriçar

não está frio, mas os arrepios são visíveis

os corpos solicitam o calor alheio

a nudez das almas se completa

e o beijo se torna doce

o que eram dois agora é uno

as carnes confusas

confundem o ar que se adensa

aroma inconfundível

de prazer se desprende

em movimentos delirantes

enquanto mãos percorrem

as bocas sugam, as línguas secam e molham

as gargantas gemem

e cabeças pendem

cinturas, quadriz, pernas

brincam um bambolê inexistente

não há pausas

apenas o ritmo frenético de amantes

úmidos lencóis testemunham a declaração

física do prazer a brotar dos corpos

que se olham e devoram com íris em fogo

tudo são suspiros ofegantes

e um novo beijo se prolonga

é selada a paz nessa batalha

carícias são trocadas

a respiração quer desacelerar

os corações batem como loucos

e o fogo do olhar se converte em pluma

que toca o ser amado juntamente

com as pontas dos dedos que ainda tremem

a boca se dedica ao sorriso

e abrindo-se levemente

deixa escapar o sentido de toda essa dança

"Amo-te, te amo, amo você"